Haja fígado para encarar. Os que gostam da folia vão precisar dele para
cuidar das cervejas, caipirinhas, batidas de coco. Para aguentar o ziriguidum,
o axé, o frevo, as horas em pé pulando atrás do trio, do bloco, da bateria, da
mulata. Para digerir as cotoveladas, pisadas no pé, chuva fora de hora. Para
compensar a alimentação truncada, às pressas, do que tiver, o que vier, entre
uma serpentina e outra.
Mas não é só nesse cenário que ele trabalha, o fígado. Vai ser
requisitado também em quem foge da badalação. Só de escapar o trabalho é tanto
que haja ele, o fígado. Tem que se esconder bem, enfrentando as barreiras de
trânsito a caminho do sossego. E ignorar as manifestações dos vizinhos que não
se conformam com o silêncio.
E nem quem busca sombra e água fresca bebe água no carnaval. É espumante
no brunch, vinho na sobremesa, um gin tônica ou dois para acompanhar o anoitecer…
E um café da manhã caprichado, um lanchinho entre outros dois, um jantar
daqueles demorados.O carnaval é o feriado dele, do fígado. Ele sabe disso, treina com empenho de lutador de MMA no calor do verão. E fica rezando para que a promessa desse ano novo brasileiro que duraria toda a quaresma – parar de fumar, ficar sem refrigerante, dar um tempo na bebida alcoólica – não acabe na quarta-feira de cinzas, lá pelas oito da noite.
E alguém aí falou em ovo de páscoa?



