A parte mais tenra


Gosto pela vida

É difícil imaginar uma criança que desenvolve uma relação saudável com a comida mesmo sendo filha da "Rainha do Mofo", apelido recebido por servir alimentos de validade questionável. Mas no caso de Ruth Reichl, filha da majestade citada, a comida virou paixão e profissão de forma surpreendente. A crítica gastronômica, badalada nos Estados Unidos e editora-chefe da revista Gourmet, decidiu contar tudo e publicou seu segundo livro, "A parte mais tenra: Um saboroso aprendizado de vida". Esse primeiro volume de memórias conta desde a infância até o início de sua carreira como crítica; uma vida dedicada a três paixões: boa comida, pessoas inesquecíveis e histórias bem contadas.
Com leves pinceladas, a autora já esboçava a estranha trajetória que a levou às panelas em seu primeiro livro, "Conforte-me com maçãs". Mas só agora conta como se deu sua educação gastronômica, relembrando com carinho as pessoas que a fizeram compreender que a comida podia trazer alegria, e não apenas indigestão.
A narrativa leve e saborosa nos mostra uma menininha rechonchuda de cabelos cacheados que se divertia à beira do fogão conversando com cozinheiras talentosas. Menina essa que aos 13 fez seu primeiro suflê. E a partir daí não se intimidou diante de receitas com 25 etapas ou que exigiam uma semana de preparação. Coisa fácil. Tarefa difícil é visualizar a adolescente rebelde com olhos pintados e calças justíssimas preparando um espaguete com molho de mexilhões.
Mas para crítica a comida sempre foi um esconderijo e uma maneira de ser querida, de acordo com ela um bom truque para impressionar os garotos quando não se é muito bonita, divertida ou sexy. Ela se tornou uma excelente cozinheira, e, quando perguntaram se escrevia tão bem quanto cozinhava, descobriu que todos que a ensinaram um pouco sobre comida lhe ditavam sempre crônicas perfeitas.
Além de ótimas histórias recheadas de seu costumeiro bom-humor, a autora não esquece de nos presentear com receitas, uma para cada pessoa querida ou momento importante. Da infância de protetora dos convidados - para que não sofressem de intoxicação alimentar - passando pela vida em francês no colégio interno e chegando à comunidade hippie da Califórnia, ela passou por extremos alimentares, da abundância de sabores da comida européia à restrição naturalista, que priorizava outros prazeres. Isso a fez criativa e livre de preconceitos gastronômicos, dona de apaixonadas definições culinárias.
Para Ruth, comer bem é uma maneira simples de se proporcionar qualidade de vida. "Apenas preparar um ovo perfeito para você mesmo de manhã é uma forma de dizer: 'Eu me respeito!'", disse em uma entrevista a um jornal americano. E é assim que, em seu livro, ela aquece nossos corações com sua vida desfrutada por meio do paladar, dando a impressão de que estamos sentados à mesa, ouvindo uma conversa agradável e, (por que não?) aproveitando uma refeição deliciosa. Ideal para quem gosta de boa comida e de uma boa história.

SERVIÇO: A parte mais tenra: Um saboroso aprendizado de vida, livro de Ruth Reichl, tradução de Fernanda Abreu, 312 páginas, Editora Objetiva.


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