O apetite de Isabel Allende



Depois de se arrepender de todas as guloseimas que rejeitou por vaidade e as oportunidades de fazer amor que rechaçou por atitude puritana ou outros compromissos, a escritora chilena Isabel Allende tenta se redimir com seu livro Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos. A escritora, famosa por romances como A casa dos espíritos e De amor e de sombras, muito bem aceitos pelo público, conta as coisas que aconteceram em sua vida de nômade com doses cavalares de fantasia. E assim, em suas obras, desfilam avós etéreas que se comunicam com fantasmas, tias virando anjos e tios que decidem que é melhor ser faquir, membros ordinários de sua família.
Mas o Afrodite em questão é meio diferente. Depois de um longo período de luto pela morte de sua filha Paula, Isabel foi retirada de seu casulo de tristeza por uma série de sonhos estranhos, em que nadava em piscinas cheias de arroz con leche ou comia Antônio Banderas bem temperado e enrolado em uma tortilla mexicana. Decidiu-se então por um exorcismo diferente, nesse delicioso apanhado de contos, curiosidades e receitas, com sua escrita agradável unindo apetite e sexo, segundo ela os responsáveis por propagar e preservar a espécie e provotar cantos e guerras.
Pesquisas primorosas sobre o tema resultaram em descrições de aromas e sabores de uma infinidade de alimentos que são ou já foram considerados responsáveis pelo aumento do desejo. Explicações minunciosas sobre o uso de ervas e um bom punhado de dicas (que podem ser divertidas e fáceis ou impraticáveis) transformam o livro num interessante manual para amantes da gastronomia e do erotismo.
Mesmo afirmando que o único afrodisíaco infalível é o amor, Isabel consegue que o livro sozinho acenda os desejos, uma bonita ponte entre gula e luxúria, os dois pecados mais tipicamente brasileiros entre os sete (isso descontando a preguiça, que já é outra história). E no caso de a quantidade de informações confundir as cabeças por aí, deve-se aproveitar o conselho que a escritora recebeu de sua mãe, Doña Panchita, para resolver as emoções que o livro faz aflorar: melhor correr para um psiquiatra ou um cozinheiro. É provável que o segundo se mostre muito mais útil.

Pra quem quiser entrar no clima:
Champignons festivos
Coquetel de camarão
Filé em champanhe
Carlota dos amantes
Outras receitas podem ser encontradas no Basilico.

SERVIÇO: Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos, livro de Isabel Allende, 330 páginas, Bertrand Brasil, R$ 50.

publicado em A Gazeta

Nenhum comentário: