Comida di Buteco

Botecando

O pessoal do sul reclama que o frio não colabora com a prática, coitados. Já o povo do Espírito Santo adere contente, o clima e a animação sempre propícios. Mas em matéria de boteco não quem barre os mineiros. O hábito de sentar num barzinho pra bater papo, beber e beliscar é tão grande que existe um bar por habitante só em BH. Não espanta que as preferências gastronômicas acompanhem esta tendência. Em vez de festivais enogastronômicos refinados (e caríssimos), o hit para os gourmets mineiros é participar do Comida di Buteco.
Causando ressaca e indigestão desde 2000, o festival julga os tira-gostos de vários bares todos os anos. Atendimento, cerveja gelada e cuidado com a higiene também são categorias junto com o petisco. Os juízes têm a árdua tarefa de rodar os botequins provando o que os donos oferecem de melhor, tudo regado a uma gelada ou uma cachacinha, outra especialidade desse povo que de bobo não tem nada.
O campeão leva a honra do título de oferecer o melhor petisco de boteco na capital mundial dos estabelecimentos do tipo, e as mesas cheias de curiosos para provar o mata-fome que já faz sucesso entre os freqüentadores de sempre.
Dia desses eu fui em BH e fiz questão de provar o petisco do "estrelado-mor" deste ano, a carne com jiló e angu do Bar do Zezé. Como minha amiga-guia disse que o bar ficava num lugar de difícil acesso, me contentei com o segundo lugar, o Porconóbis de Sabugosa. Coisa muito fina.



Costelinha de porco, lingüiça calabresa, milho cozido e ora-pro-nóbis se juntam em uma panela borbulhante e cheirosa. Delícia. Milho verde nunca mais será o mesmo. Comemos tanto que no final já estávamos raspando o fundo da panela fervendo com pão e queimando a língua. O prato para quatro sai por R$ 19,80. Não paga os quatro sorrisos.
O Casa Cheia, boteco dono do petisco, fica lá no mercado Central, no meio de cestos de palha, queijos mil, animais, tudo o que você imaginar. Funciona desde 1978 e tem atendimento confuso, mas que funciona.
No final da minha experiência senti muita compaixão pelo júri do Comida di Buteco. Passar 31 dias a comidas assim e cachaça é rotina que mata qualquer um. De alegria. Ô, trem bão...

SERVIÇO:

Casa Cheia
Av. Augusto de Lima, 744, Loja 167, Mercado Central, Centro, Belo Horizonte, Minas Gerais. (31) 3274-9585.

2 comentários:

joana pellerano disse...

Matéria do Bom Dia de 23.02.2005:

'Botecando' em Minas Doze mil bares em uma única cidade. Um para cada 200 habitantes. Não é à toa que Belo Horizonte merece o título de "capital nacional dos botecos". Nas mesas de bar, entre um petisco e um gole, se conjuga um verbo que os dicionários ainda desconhecem...
Maçã de peito, cebola, mandioca e muita mordomia para o freguês. É um tratamento tipo de um povo que gosta de agradar e ter agrados também. "É bem de Minas, é difícil a gente ver isso em outro lugar", constata uma freqüentadora.
O bar parece um armazém antigo, onde a bagunça faz parte do cenário. A freguesia fica do lado de fora, esperando a noite chegar.
Quando a noite cai, milhares de pessoas cruzam Belo Horizonte com a mesma intenção. Eles vão fazer valer um verbo que nem existe na língua portuguesa, mas que na capital de Minas é muito conjugado...
"Só belo-horizontino sabe conjugar o verbo e em todos os tempos. Eu boteco, tu botecas, ele boteca, nós botecamos... Então nós sabemos mesmo. Botecar é em Belo Horizonte e não tem isso em outro lugar do mundo", declara o dono de bar Túlio César de Montenegro.
Não tem lugar certo. Pode ser dentro de uma garagem, no meio de uma praça, debaixo de uma árvore, até em uma casa normal ou nos fundos dela, na mesa da diretoria... Afinal, quem não boteca...
"Não tem jeito, não é bom sujeito, não", brinca um freqüentador.
Para conjugar o verbo, não precisa ter hora e nem motivo. "Botecar depois do serviço, para encontrar com a mulher, com a namorada, com outros amigos", observa o advogado
Geraldo Santana.
Nos painéis, Belo Horizonte e o Rio de Janeiro viram uma só cidade. É nessa praia que botecam os mineiros. "Uma vez eu fui no Rio de Janeiro e eles perguntaram como que a gente fazia programa sem praia. Aí eu respondi que a gente ia para o boteco. É a nossa praia", conta a advogada Flávia Costa.

joana pellerano disse...

Achei a receita dessa delícia, ó: http://www.chefonline.com.br/receitas/receitas.php?codigo=887&tipo=busca&tela=receita

e a campeã desse ano, que é do mesmo bar: http://www.comidadibuteco.com.br/receitas.php?cod_rec=122