Farinha, Feijão e Carne-seca

Esse eu escrevi faz uns meses, saiu no jornal e tudo, mas acabei não colocando aqui. Não sei bem se foi porque eu achei sério demais, ou coisa assim. Mas a verdade é que eu achei um livro bem interessante. Quem sabe alguém não concorda...


Banquete verde-e-amarelo

Quando se fala em livro sobre comida se pensa logo em uma versão moderna do caderninho de receitas, recheada com dicas de chefs famosos e fotos de encher a boca d’água. Mas discussões sobre os hábitos alimentares, principalmente os brasileiros, é assunto que não faz volume nas prateleiras das livrarias.
Felizmente, vez ou outra aparece algum lançamento para dar apoio aos clássicos “História da Alimentação do Brasil”, de Câmara Cascudo, e “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. A bola da vez é “Farinha, Feijão e Carne-seca: Um Tripé Culinário no Brasil Colonial”, fruto da tese de mestrado da antropóloga paulista Paula Pinto e Silva, defendida em 2002 no Departamento de Antropologia da USP.
Em suas 149 páginas, o livro tenta entender as particularidades da formação do Brasil analisando sua comida e os antigos modos de cozinhar.
A narrativa percorre a história e mostra o que os índios comiam antes do descobrimento, o que os portugueses trouxeram para o Brasil, quais eram os hábitos dos negros e o que um povo aprendeu com o outro, registrando a mistura de culturas que moldou os hábitos alimentares dos brasileiros.
Paula utiliza registros de viajantes, como os franceses Auguste de Saint-Hilaire e Jean-Baptiste Debret, encontrados no Fichário Ernani da Silva Bruno, do Museu da Casa Brasileira, e cria uma obra interessante também para quem não entende nada de antropologia, mas se interessa por aprender sempre.
É interessante, por exemplo, saber como as portuguesas se adaptaram à cozinha que ficava fora da casa, onde o calor era bem mais suportável. E como o porco dominou os cardápios, sua carne servindo como fonte de proteína e sua gordura sendo usada para conservar e para substituir a manteiga portuguesa e a gordura de tartaruga utilizada pelos indígenas.
Curiosamente, a escritora mostra que no dia-a-dia, quando não havia festa nem visita, a alimentação consistia em feijão cozido com poucos pedaços de carne-seca em um caldo engrossado com muita farinha de mandioca. Para o rico, o negro, o português, o índio, o pobre, o mestiço...
O Brasil ainda vai tímido na esteira comandada pela França, que possui verdadeiros tratados sobre a formação da sua famosa gastronomia. Até por isso é louvável a atitude da Editora Senac, que escolheu um caminho com menos receitas e mais conteúdo em suas publicações gastronômicas. Em breve, a editora publica também a tese de Cristiana Couto sobre a alimentação no Brasil e em Portugal do século XIX, um estudo feito a partir dos principais livros de cozinha que circularam nos dois países naquela época.


SERVIÇO: “Farinha, Feijão e Carne-seca: Um Tripé Culinário no Brasil Colonial”. De Paula Pinto e Silva. Editora Senac, São Paulo, 2005, 149 páginas. R$ 35.

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