Post educacional (ou Comida e Identidade)

"Se a fórmula 'diga o que comes que te direi quem és' reflete uma verdade não só biológica e social, mas também simbólica e subjetiva, temos que admitir que o comensal moderno, duvidando do que come, pode muito bem duvidar de quem ele é". Quem disse isso não fui eu, obviamente, mas meu caro companheiro de trabalhos acadêmicos Claude Fischler. Ele e meus outros coleguinhas Massimo Montanari, Luís da Câmara Cascudo, Henrique Carneiro e a grande dupla Poulain e Pollan tem sido companhias constantes nesse fim de pós. Por isso vou contar umas historinhas em homenagem a eles. Sim, caros amigos, vocês entenderam certo: esse é um post educacional.
Com base na teoria acima citada, do Fischler, chegou-se à conclusão que as tradições alimentares podem ter uma função emblemática de resistência cultural. A identidade nacional, uma das principais fontes de nossa identidade cultural, que é quem nós somos – ou quem mostramos que somos –, quando ameaçada, também pode ser reafirmada através de escolhas feitas à mesa.
Duvida? Senta que lá vem a história.
Durante a Primeira Guerra Mundial era forte nos Estados Unidos o sentimento anti-germânico. Nada da Alemanha era bem-vindo. Exceto o chucrute. Os americanos amam chucrute. Mas não podiam continuar compactuando com o inimigo. Então surge uma campanha do Comitê de Informação Pública do então presidente Thomas Woodrow Wilson para rebatizar o sauerkraut. O novo nome do repolho fermentado seria Liberty Cabbage. 
Mas os americanos não pararam por aí. Durante a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, a França não se dispôs a fornecer tropas para ajudar os ianques. A tentativa de repressão e enfraquecimento veio na área mais conhecida da cultura francesa: a gastronomia. Enquanto as tropas de Bush cercavam o Iraque, o deputado republicano Walter Jones e seu colega Bob Ney, presidente do Comitê Administrativo da Câmara, convocaram uma coletiva de imprensa em Washington para anunciar solenemente o banimento das french fries (batatas fritas) e das french toasts (uma espécie de rabanada) dos cardápios dos restaurantes da casa. A partir daquele momento a palavra french seria trocada por freedom, liberdade. Os pratos passariam a se chamar Freedom Fries e Freedom Toasts.
As tentativas de renomear pratos inimigos nunca deu certo. Primeiro porque não atingiu os donos de tais pratos, que continuaram se deliciando com seus sauerkraut e suas french fries. Depois porque tais comidas já faziam parte do cardápio americano e decreto nenhum muda isso. A gente até pode tentar evitar as novidades comestíveis para preservar nossa "frágil identidade ameaçada pela globalização", mas, como já vimos antes, essa tal identidade é uma soma de tudo que nos influencia, seja lá de onde vier. E essa, amiguinhos, é a lição de hoje.


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