Raclette de mineiro

Soube outro dia que no inverno vende-se tanta fondue pronta quanto panetone no Natal em São Paulo. Mas o prato anda perdendo espaço para um vizinho: a raclette. Raclette é a receita e o ingrediente principal dela, um queijo macio de leite de vaca. Coloca-se a parte cortada do queijo à beira do fogo ou em uma panelinha especial para derreter. Quando molinho, raspa-se a camada no prato e come-se com batata cozida, picles, coisas defumadas.
Conheci a raclette há uns poucos anos e não achei graça. Achei que era fidelidade à fondue, muito mais lúdica e sociável, mais permissiva com a pose de comilões desastrados, como eu. Mas acabo de descobrir o motivo em meio à uma faxina de memórias.
Peguei a rua errada voltando pra casa hoje e caí num universo paralelo. A três quadras da minha casa há uma cidade do interior, com casinhas de muros baixos e fachadas coroadas com a imagem de uma santa qualquer, iluminada com uma luz tímida. Lembrei da casa da minha avó postiça, dona Saldanha, que morava numa casinha mais ou menos assim na gloriosa cidade mineira de Conceição do Mato Dentro.
Quando criança, apostava que Conceição do Mato Dentro tinha sido levada de helicóptero para a meiuca de Minas Gerais, jogada lá de cima. Não fazia sentido alguém atravessar aquele pedação da Serra do Cipó para fundar uma cidade. Odiava a viagem e fazia uns planos secretos para ficar morando por lá, só para não ter que sacolejar a volta até BH.
Foram uns verões ótimos, andando de cavalo, batizando vaquinhas, tendo meus machucados desinfetados com cachaça. É daí vem o meu anti-raclettismo. Todo dia de manhã eu, no auge do mimo, podia escolher o café da manhã. Adotei uma iguaria única para a refeição: pão com queijo ratinho. Quem inventou o nome foi a vó Saldanha, que cortava uma fatia grossona de queijo Minas e colocava pra derreter na frigideira. Quando começava a formar uma casquinha, deslizava o queijo cremoso para dentro de um pão francês, que eu comia na companhia de um geladíssimo leite com chocolate.
Aqui, na minha cabeça, um pedaço de queijo derretido, tenha ele o nome afrancesado que quiser, jamais será melhor que esse abraçado no pão. Raclette boa mesmo, pra mim, é a que fala uai e mora lá em Conceição do mato Dentro.

5 comentários:

Melissa S. disse...

Nossa, minha avó fritava queijo minas pra eu comer com pão de sal igualzinho. Mas sem ter que atravessar a serra, só subindo o morro de Santos Dumont, Vila Velha :)

Espiões da Gula disse...

Ah, parece muito boa essa tal de Raclette, mas com certeza o pão que sua avó fazia devia ser bem melhor!

E finalmente atualizamos o nosso blog, mas sempre acompanhamos o Apetite!

Abraços,
Espião Flávio

Paula Dell'Avanzi disse...

Nossa acabei de achar o seu blog por acaso no google, procurando informações sobre o curso de jornalismo gastronomico, adorei o blog,vou acompanha-lo daqui pra frente, parabens!!
E a minha mãe também fazia isso com o queijo,detalhes de infância são insubstituiveis.

Verena disse...

Joana, cheguei até aqui através do Diga Maria...e adorei de cara o primeiro post que li...
Conheci a Serra do Cipó através de uns vizinhos que tivemos e eram de BH. Eles nos levaram uma vez para passear por lá e visitar um hotel que tinham. Foi uma delícia, adoramos tudo e principalmente a comida!
Esse queijinho assim é tudo de bom mesmo! Beijos!

joana pellerano disse...

Oi, meninas.
Muito obrigada pelas visitas e pelos comentários carinhosos. Voltem sempre!
Um abraço,
Joana