Chatos

Aí vai a crônica que saiu hoje do Prazer&Cia, do jornal A Gazeta, lá em Vitória. Qualquer semelhança com seu dia a dia é mera coincidência...

Chatos 
Incomodar é fácil. Mas ser chato, chato mesmo, é uma arte. E poucos terrenos são mais férteis a safras de chatos que a gastronomia. Os gastrochatos são toda uma tribo. Eles chegam à mesa já na entrada, que deve ser elaborada com ingredientes orgânicos e cultivados localmente (mesmo correndo o risco de deslizar para outra categoria, a dos ecochatos). No prato principal, surgem com uma lista interminável de preciosidades que faria brilhar os olhos de qualquer agente de alfândega. Na sobremesa, comparecem junto à combinação de desconstruções, espumas, esferas e coisas que parecem ser mas não são.
Ah, e vêm no vinho, claro. Os enochatos, pioneiros, já são membros de clube incômodo com direito à carteirinha. Podem ser identificados no ato de cuspir pílulas de conhecimento enólogo sempre que estão a menos de três quilômetros de uma garrafa de vinho, aberta ou não. Sinais como rodopiar a taça até bater recordes de velocidade centrífuga, enfiar o narigão na bebida, identificar aromas de “raposa molhada” ou “folhas secas no chão de bosques do norte europeu” e beber por entre os dentes ajudam no reconhecimento dessa trupe.
A repulsa pela erudição etílica de tão ilustres senhores e senhoras criou um grupo ainda mais chato: os antienochatos, quase antiflamenguistas. Começaram bem, irritados com o excesso de informação ser proporcional à diminuição do prazer de beber. Mas perderam a mão, rejeitando tanto o vinho para, eventualmente, reconhecer a “complexidade sensorial infinitamente maior” da cerveja, do café, do chá, da tubaína. Lançaram moda e já começam a atrair enochatos em recuperação.
À mesa, o chato não come. Degusta, avalia, compara, identifica tendências. Está sempre à caça da nova combinação de texturas, aromas e sabores surpreendente a ponto de fazer cócegas em seu paladar refinado. E sempre pronto para avaliar tudo, criticar o ponto, reclamar da montagem do prato, da posição da guarnição. Ou a valorizar o que só a capacidade desenvolvida em anos de gastrochatice pode entender.
Tenho uma teoria de que jamais alguém assumirá em público que provou caríssimas gramas de carne kobe ou dos gigantes king crabs – equivalentes contemporâneos da vitela e da lagosta – e não gostou. Se custa tanto, tem que ser bom, não há possibilidade contrária. E o sujeito tem que gostar. Senão, o que vão achar dele? Que não entende de gastronomia? Que não é refinado o suficiente? Que estragou o paladar com overdoses de Coca Zero e coxinha?
Mas a verdade é que devemos aos chatos o menu caprichado que nos espera na janta hoje. Insisto, sobre o valor destes, que não é qualquer um que é capaz de, apenas com falas específicas, levar um grupo de pessoas à exaustão. Mas há limites aceitáveis para teorizar o prazer: há de se manter o prazer, e não soterrá-lo com falatório. Aí é quando o chato – eno, eco ou gastro - perde o título. Vira o insuportável, que na sua tentativa excessiva de mostrar conhecimento acaba sem futuro social. Aí, meu amigo, não tem mais jeito. Vamos todos nos esconder do fulano atrás da mesa de canapés.

2 comentários:

marcel gussoni disse...

Oi Joana, muito bacana essa crônica.
E acho que, no fundo, todos nós em algum momento somos um desses tipos de chatos..rsrs

Adorei seu blog! ;)

bjs

joana pellerano disse...

Mais que em algum momento :o) Que bom que gostou, Marcel. Volte sempre! Estou sempre lá conferindo suas harmonizações...
Abraço,
Joana