Banquetes históricos contemporâneos

Você já comeu larva de taquara? Hoje o prato não anda muito popular, mas era um sucesso no Brasil colonial. E ceviche? Comer peixe cozido em limão, hoje super hype, era um hábito considerado suicida por aqui no início da década de 1990, pois expunha o comensal à cólera.
Tudo que a gente acha óbvio e universal em relação à alimentação é aprendido e se transforma no tempo e no espaço. Se há poucas décadas o coquetel meia de seda fazia o maior sentido, hoje dá urticária pensar em beber tanto creme de leite com esse calor e essas calorias...
Mas não só gostos e preferências mudam ao longo do tempo. De acordo com o historiador Massimo Montanari, também os ingredientes como os conhecemos têm prazo de validade. Até mesmo variações climáticas podem afetar ou extinguir um sabor. Por isso ele critica a moda da “cozinha histórica”, que visa recriar menus antigos com ingredientes contemporâneos e para públicos idem.
Tudo indica que é essa ideia fraca que norteia Heston Blumenthal em seu programa de TV Heston's Feast (exibido no Brasil pela Fox Life).
Blumenthal é o único chef páreo para Ferran Adrià: seu The Fat Duck e o elBulli do catalão se revezaram por há anos nas cotações e listas como o melhor restaurante do mundo. Adepto da chamada gastronomia molecular, ele segue o lema de que a cozinha do futuro está no passado.
Para provar, mergulhou-se em livros de receita históricos para realizar banquetes inspirados em eras emblemáticas. Mas ninguém tem um dos melhores restaurantes do mundo copiando receita. A revisão bibliográfica é só o primeiro passo de um trabalho de pesquisa que envolve viagens, entrevistas, tentativas e erros hilários e testes de aceitação do prato calçadas afora.
No programa de estreia, que você encontra logo abaixo, há o caso de uma sopa de tartaruga que reforça o argumento de Montanari. Sorte que Blumenthal não quer recriar a "cozinha histórica". Quer atualizá-la. Traz luz a soluções alimentares esquecidas e estigmatizadas, mostra novos jeitos de cozinhar ou apresentar ingredientes corriqueiros. Dá sentido um sentido aos banquetes históricos. Eles podem funcionar como o lembrete de costumes apagados da memória, um post it cultural. E - lucro! - podem ser divertidos pra caramba.



Um comentário:

Ana Franco disse...

Sou fã de carteirinha do Heston. Por mais que digam que ter que ouvir o barulho das ondas num iPod pra degustar um determinado prato dele seja um exagero, acho que Mr. Blumenthal é o melhor exemplo do que hoje chamamos de "experiência gastronômica".

Não é pra comer todo dia, mas tb não dá pra negar que o cara é um maníaco perfeccionista. Tanto que já teve também o programa chamado "In Search for Perfection".

Dois episódios imperdíveis de Heston Feast's: o de Natal e o inspirado na Fantástica Fábrica de Chocolate.