Ramadã

Se você vai a qualquer outro país islâmico por agora, prepare-se para o Ramadã. Nesse mês, comer, beber, fumar, ter relações sexuais e outras distrações são proibidas para os fiéis enquanto o sol brilha, deixando-os mais focados em exercitar a paciência, a espiritualidade e a caridade. O período cai sempre no nono mês do calendário lunar.
Como o calendário gregoriano baseia-se no sol, para nós a data varia. Em 2011, o Ramadã começou junto com agosto, e vai até o dia 30.
Eu quis avisar a todos porque, quando visitei o Marrocos, ninguém o fez. Descobri enquanto dormia num albergue na Medina de Marrakesh. No meio da madrugada, todas as mesquitas ali do centro antigo da cidade acionam microfones e sirenes no máximo volume, chamando todos para as preces rituais que varam a noite.
Depois do susto inicial, me acostumei depressinha com o Ramadã. Durante o dia, eu não era a única sonolenta: os marroquinos também não tinham dormido em função de seus deveres religiosos, e era comum ver gente cochilando pelos cantos. Além disso, eles não podiam beber água para refrescar o verão.
Eu podia consumir o que quisesse, claro. Mas, por respeito, cada gole ou mordida era bem escondido. Disfarcei tâmaras, amêndoas, sucos de laranja. No interior do país, muitos restaurantes fecham durante o dia, mas em Marrakesh eles recebem a turistada sem problemas.
A festa começa mesmo às seis, ao pôr do sol. Minutos antes, a ansiedade paira no ar, tão palpável quanto o Ras El Hanout, mistura de temperos que perfuma a Medina. É hora de quebrar o jejum, e todos mergulham em cumbucas de harira, sopa encorpada de lentilha e tomate. Para restaurar a glicose, o jeito é atacar de chebakia - biscoitos de gergelim fritos e cobertos com mel - com chá verde com menta e um torrão tamanho família de açúcar. Quem não jejuou também abusa da comilança.
Passando pelo mercado Djemaa el Fna, o maior do país, não existe resistir aos tagines - são vários, mas há de se provar o com carneiro, limão em conserva e azeitonas.
Forças restauradas, é hora de descansar o corpo ouvindo preces em árabe. Dormir, só na volta, Insha'Allah. E será um sono povoado dessas orações por um bom tempo.

Um comentário:

Melissa disse...

Obrigada por me fazer recordar uma das experiências mais fascinantes que vivi em minha vida, Jojo.
Que Allah abençoe nossas experiências gastronômicas :)