Acarajé

Turista na Bahia sorte teve, tem e terá. A Bahia tem baianos sorridentes e tranquilos. Tem paisagens de tirar o fôlego e redes que te esperam depois do almoço. Tem vatapá, caruru, mugunzá e tudo o mais. Mas, acima de tudo, tem acarajé.
O tal do acarajé é a mais perfeita armadilha pra turista. A logística é perfeita; em cada esquina que se preza tem uma baiana fritando acarajé. O cheiro pungente do dendê batiza sua roupa e seu cabelo, e canta um "chega mais" cadenciado para o estômago. Irresistível.
Acarajé é comida de status. Afinal, é lanche de orixá, petisco dos deuses. Por isso a receita não pode ser modificada e deve ser preparada apenas pelos filhos-de-santo. Mesmo sendo vendido por aí pela rua pra quem quiser, acarajé é comida de santo.
Tudo começa com uma colherada generosa da massa grossa e bege-pálida de feijão-fradinho sem casca frita no dendê. O bolinho que sai dessa operação é cortado no meio e recheado.
Primeiro vai a pimenta. Nesse momento, não se esqueça da clássica armadilha pega-bobo: se a baiana perguntar se quer quente ou frio ela não se refere à temperatura do bolinho, mas à quantidade de pimenta. Vale até uma aulinha: em iorubá "akàrà je" significa comer bola de fogo.
Depois vem vatapá, um creme de camarão e peixe com dendê, castanha de caju, amendoim e coco. Aí vem o caruru, creme com mesma base de ingredientes que o vatapá, mas que leva quiabo. Depois uma saladinha de tomate tipo vinagrete. Coroa tudo com camarão seco e tá na mão.
Aí chega a hora da armadilha. Turista desavisado vem comer acarajé achando que tá provando só mais uma iguaria típica. Mas acarajé vicia feio, não vai dizer que eu não avisei. Você quer o segundo na hora que recebe o primeiro, e quer o terceiro na primeira bocada. Mas o negócio é pesado e faz mal para estômagos delicados. Mas uns dois por dia não fazem mal a ninguém...

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