Oniromancia

Sonhar não é preciso. Não adianta só seguir a receita em busca de leveza e doçura. É preciso um extra. Dizem que é amor, mas eu acho que é farinha boa, mão experiente e óleo bem quente.
Nos sonhos, se corretos, o exterior açucarado quase se antecipa à dentada, revelando as delícias do recheio. Caso raro, infelizmente. E, quando dão errado, o trocadilho com a palavra pesadelo pode ser realmente necessário, ainda que os trocadilhos quase nunca o sejam.
Para quem consegue dominar a ciência dos sonhos – oniromancia, dizem os estudiosos – há de se tirar o chapéu. A Dulca, uma das mais tradicionais docerias de São Paulo, por exemplo. Em uma cidade que abre (e fecha!) estabelecimentos comerciais às centenas a cada dia, a rede paulistana sobrevive fortemente desde a década de 1950. Tão antiga é a receita dos sonhos, seguida sem reparos pela família italiana que fundou o lugar.
Eles nascem na Barra Funda, na fabriqueta dulciana. Em teoria, nada difere do sonho de padaria que assombram essa geração. Mas o resultado final, despachado às centenas para sete lojas, é bastante superior à média, rendendo ao doce repetidos títulos de o melhor da cidade.
Para a alegria de quem anseia por sonhos melhores, ele vêm em numeração P, M e G. São, assim, adequados tanto a quem conta calorias quanto a quem tem mais com o que se preocupar, como a busca pela proporção entre massa e recheio que mais lhe agrada.
Os sonhos não enfrentam solidão na vitrine: ganham a escolta de coxinhas, empadas e risoles e a concorrência de bombas de chocolate, mil folhas crocantes, tortas de morango. Pastiera de grano (torta de ricota, trigo em grãos e frutas cristalizadas perfumada com canela) e panforte (primo do torrone que leva frutas cristalizadas, castanhas, mel e especiarias) tradições importadas respectivamente de Nápoles e de Siena, também estão lá.
Num fim de tarde de garoa e café na mão, aí sim sonhar é preciso. E em todos os sentidos semânticos.

Nenhum comentário: