Tapeando

Na Espanha come-se tarde. Entre almoço, às 14h e jantar, lá pelas 23h, fica espaço para beliscar. Se for na rua, antes de voltar para casa do trabalho, bom. Se for acompanhado de cerveja ou vinho, melhor ainda. Se for de pé no balcão, disputando cotovelo a cotovelo um espacinho para apoiar copo e palito, dando até logo para um dos sóis mais notívagos da Europa, delícia. 
O happy hour espanhol é o território das tapas, petisquinhos para enganar a fome e acompanhar a birita. Vale um pedaço de tortilla, gazpacho geladinho, camarões com muito alho, calamares crocantes...
Um patrimônio nacional tão informal e gostoso não passou desapercebido: as tapas pegaram carona nas malas dos turistas. Internacionalizaram-se. Aqui no Brasil, viraram moda.
Tudo agora é tapa. A porção de batata frita? Tapa. Bruschetta? Tapa. Aqueles canapés em colheres, para arrebatar com uma bocada? É, você já me entendeu. Nossa comida de botequim, também patrimônio, ganhou sotaque. Não existe mais "porção" em cardápio de restaurante ou bar chique, "boteco de butique". Tudo são tapas.
Estranha é a importação de hábitos como moda. As adaptações às vezes estragam as referências e fazem as pessoas aceitarem a opção menos interessante como a melhor.
Essa tradução do espanhol me parece especialmente perturbadora. No período em que morei na Espanha, há alguns anos, granas curtas, não tive contato com as tapas de autor, finas, com selo Michelin. Se leio tapas espero sardinha frita, jamón, queijo manchego, pão com tomate. Não penso em foie gras, peras, trufas, rúcula. É um exercício constante de ajuste de expectativas, tudo por causa de um nome.
É clichê, eu sei, mas não me sai esse trocadilho que vem a seguir da cabeça. Essa modinha de tapas no Brasil só faz com que me sinta tapeada...

4 comentários:

@marcuslr disse...

Viajo muito e descobrir coisas novas é fenomenal. Adoro aprender novos hábitos e novas maneiras de fazer as coisas. Mas, essa absorção desenfreada de conceitos é típica de povo tupiniquim em países que, ao contrário do que dizem, tem sim personalidade. Só não sabemos valorizá-la.
Deus salve a PORÇÃO de torresmo!

Joana Pellerano disse...

Salve! :)

Cláudio Gonzalez disse...

Disse tudo! Também me sinto tapeado com estas modinhas dos tapas e agora também dos "botecos" portugueses, as tais "tascas". E o pior: aproveitam a mudança de nome para cobrar o olho da cara!.
Abraços amiga

Joana Pellerano disse...

Que bom que gostou, Cláudio. E é verdade, a onda já está batendo nas tascas também...