Coentro

Capixaba é bairrista, viu? Um tanto. Quem fala um ah de qualquer coisa da terra corre o risco de ganhar aquele olhar “quem ele pensa que é?” e desfrutar de exílio social sem data de validade. Capixaba tem disso.
O bairrismo não é uma coisa ruim. Pode ser, quando ignoramos a qualidade para louvar apenas a origem. Mas não há nada de errado em valorizar as coisas que estiveram conosco a vida toda. Às vezes, somos os únicos que dedicamos tempo e carinho o suficiente para entender o quanto são preciosas.
Meu calo é o coentro. Eu não gosto de futebol nem compartilho minhas crenças políticas, sou uma pessoa de poucos conflitos. Mas ainda me mordo quando falam mal de coentro.
E o povo fala as piores misérias do tempero ícone do nosso prato idem, a moqueca (Parênteses: porque a versão baiana ganhou o título de moqueca Brasil afora, enquanto a capixaba precisa da denominação de origem para ser reconhecida? Vai entender...).
Há quem diga que a culpa de tanto preconceito em relação ao coentro é seu aroma. Uns garantem que o cheiro carrega desagradáveis notas de percevejo. Outros comparam a erva com sabão no olfato e no paladar. A ciência explica: o cheiro do coentro possui aldeídos - compostos químicos orgânicos - extremamente similares aos contidos no sabão e nos insetos, entre outros frescos e agradáveis.
Já a bronca com o sabor é graças à feniltiocarbamida (PTC, na sigla em inglês), um elemento que realça o sabor amargo. Não gostamos de amargor por instinto ancestral: na natureza, as toxinas costumam ter sabor amargo, então era bom perceber imediatamente esse sinal de perigo antes de ingerir grandes quantidades do veneno.
A capacidade de se perceber a PTC é uma mutação dominante e afeta cerca de 70% da população mundial. Gostar de coentro não é para todo mundo mesmo; só quem escapou dessa rasteira genética é apto a apreciar a textura das folhinhas recortadas, o frescor do aroma, o sabor único.
Então já é hora de dispensar a validação dos X-Men anticoentro. Nós sabemos o que eles estão perdendo. Coitados...

2 comentários:

Adri disse...

ADORO coentro!
e longe de ser um veneno, o coentro é extremamente desintoxicante, nos limpando até de metais pesados.
beijos e queijos

Joana Pellerano disse...

Isso aí, menina!