Fígado

Já é carnaval. O ano novo brasileiro está prestes a começar, e conta com uma festa de réveillon indefectível: cinco dias (ou quatro e meio?) de um feriado concorrido, barulhento, suado, fantasiado de pirata e, principalmente, bêbado.
Haja fígado para encarar. Os que gostam da folia vão precisar dele para cuidar das cervejas, caipirinhas, batidas de coco. Para aguentar o ziriguidum, o axé, o frevo, as horas em pé pulando atrás do trio, do bloco, da bateria, da mulata. Para digerir as cotoveladas, pisadas no pé, chuva fora de hora. Para compensar a alimentação truncada, às pressas, do que tiver, o que vier, entre uma serpentina e outra.
Mas não é só nesse cenário que ele trabalha, o fígado. Vai ser requisitado também em quem foge da badalação. Só de escapar o trabalho é tanto que haja ele, o fígado. Tem que se esconder bem, enfrentando as barreiras de trânsito a caminho do sossego. E ignorar as manifestações dos vizinhos que não se conformam com o silêncio.
E nem quem busca sombra e água fresca bebe água no carnaval. É espumante no brunch, vinho na sobremesa, um gin tônica ou dois para acompanhar o anoitecer… E um café da manhã caprichado, um lanchinho entre outros dois, um jantar daqueles demorados.
O carnaval é o feriado dele, do fígado. Ele sabe disso, treina com empenho de lutador de MMA no calor do verão. E fica rezando para que a promessa desse ano novo brasileiro que duraria toda a quaresma – parar de fumar, ficar sem refrigerante, dar um tempo na bebida alcoólica – não acabe na quarta-feira de cinzas, lá pelas oito da noite.
E alguém aí falou em ovo de páscoa?


Um comentário:

wair de paula disse...

fico pensando no sonho de consumo do jornalista zé simão, de ter um fígado auto-limpante...
forte abraço!