Picadinho

Já passava das 10 horas. Apesar do hábito de dormir cedo os dois ainda estavam em frente à televisão, de pijamas. Haviam protestado o quanto puderam diante do presente do filho, mas agora ali, diante da nova tv grandona e com imagem perfeita, estavam bem satisfeitos.
De repente a campanhia tocou. Mas quem seria a essa hora? O marido foi abrir, cauteloso. Atrás da porta estava um homem de meia idade. Devia ter a mesma idade do filho, mas estava envelhecido, com aquele ar abatido e pálido dos que habitam o escritório. Trajava um terno marrom amarrotado e carregava uma valise.
Deu boa noite e foi entrando, sem cerimônias. O marido, atônito, não tentou impedir. O sujeito caminhou até a mesa de jantar e se sentou na cabeceira. A mulher adiantou-se para tomar uma providência. Mas foi interrompida pelo pedido.
- Há tempo estou com vontade de picadinho. Simples, cheiroso, com arroz e nada mais. Hoje larguei tudo pela metade e vim. Já estava na hora.
Dito isso, silenciou, como que à espera. Os dois se olharam por um longo minuto, sem entender direito o que passava. Até que ela se cansou e tomou uma atitude. Foi ao quarto, vestiu o quimono de flanela, ajeitou o cabelo e voltou para a cozinha.
Começou. Dourou cebola na manteiga e depois juntou a carne. Salpicou tudo com farinha de trigo, acrescentou molho inglês e extrato de tomate, mexendo sem parar. Cozinhou em fogo baixo até o caldo engrossar. Acertou sal e pimenta, colocou no prato acompanhado de um arrozinho branco.
Colocou o prato fumegante no nariz do sujeito. À essa altura o marido também estava sentado na mesa. O silêncio seguia. Ela sentou-se.
O homem pegou o garfo e provou o picadinho. Mastigou devagar. Mesmo sem dar sinal de aprovação repetiu a garfada. Várias vezes. Limpou o prato, a boca, levantou-se. Atirou duas notas de dez na mesa, agradeceu com um meio sorriso. Foi sozinho até porta.
Os dois se olharam de novo. Ela se levantou primeiro e foi levar o prato para a cozinha. Ele recolheu os vinte contos e colocou numa caixinha em cima do piano.
- Até que foi um bom negócio - sorriu.
E aí sim os dois foram dormir.

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