Boteco espanhol

 Mais que a tourada, que a paella, que as castanholas: talvez o que haja de mais emblemático na Espanha sejam os botecos. Espalhados pelo país, mas especialmente concentrados em Madri, os estabelecimentos dedicados à bebedeira costumam ser simples, antigos, lotados, barulhentos e baratos.

Quando chega o verão de lá, como o nosso aqui já se anuncia, esses bares começam a ficar mais e mais cheios a cada minuto, com espanhóis e turistas em brigas de cotovelo por um canto do balcão e a próxima dose de clara (cerveja com suco ou refrigerante de limão) e tinto de verano (vinho + água com gás). Em São Paulo, o melhor representante da espécie é o Maripili (rua Alexandre Dumas, 1152).  
Lugar bom e barato na capital paulista é sinônimo de fila de espera. Ali, onde come-se e bebe-se bem (e muito) dentro de dois dígitos, a fila começa na sexta no happy hour e parece só terminar no domingo à tarde.
A boa notícia é que vale a pena. O Maripili é pequeno, pouco hype e com volume baixo, mesmo quando lotado e com a TV ligada. Nada parecido com os bares de tapas da moda. Esse, para mim, é o melhor elogio que alguém pode fazer. 
Quem não quer lotação vai gostar do almoço. Nesse horário, durante a semana, o Maripili é (quase) só seu. Dá para escolher entre as 10 mesinhas e ficar calmamente analisando os cardápios - o fixo e da lousa, que muda de vez em quando.
Tem porções de embutidos, revuelto de setas (ovos mexidos com shiitake) e pratos como callos, a buchada cheia de páprica que não parece nem parente da que costumamos comer no Brasil; ou salpicón de mariscos, quando mexilhões, polvos e camarões são cozidos e depois afogados em azeite com cebola e pimentão. 
Nunca ignore a tortilla de batatas, bem molhadinha. Se estiver calor, gazpacho: tomate, azeite, gelo, pão, nenhuma necessidade de mastigar. Nada poderia ser mais perfeito nessa vida.  E não fica atrás o pão com jamón, que é tostado e besuntado de alho e molho de tomate fresco antes de ganhar fatias finas do presunto curado espanhol cortadas na hora.
Ultimamente não tenho conseguido superar o apelo do rabo de toro, a rabada perfumada com canela, noz-moscada e páprica doce. Nessa hora a cesta de pão onipresente nas mesas precisa ganhar um refil para raspar o molho do prato.
Quando a saudade da Espanha pintar, estarei lá. Topando até dividir tortilla e brigar de cotovelo.


2 comentários:

wair de paula disse...

Tudo de bom, adoro tortillas (ainda não cinsegui fazer igual, apesar de tentar muuito...). Tks pela dica, abs.

Joana Pellerano disse...

Jura, Wair? Não é difícil! Mas tem que se numa frigideira funda, com bastante batata e ovo para dar certo. Depois me conta.