Os Maias

Se os Maias estiverem certos essa é a última vez que vamos nos falar. A última vez que você lê jornal. O último acesso à internet. Em algum momento até o fim do dia o mundo acaba. E era isso.
 O medo do fim do mundo faz a gente um tanto mais inconsequente. Mais disposto a tomar banho de chuva, a pegar um empréstimo, a comprar o novo iPhone, a comer além do limite (eu já devorei uns três quindins de Pelotas por conta). Ficamos mais no clima de encontrar os entes queridos, semi-queridos, os conhecidos em geral. Nunca soube de um fim de ano com tanta festa da firma, amigo secreto/oculto/x, dois turnos de happy hour. Uma ânsia coletiva de colocar os olhos pela última vez em quem teve importância por um minuto desses da vida.
 E se estamos tão fáceis, generosos e nostálgicos, alguém vai querer tirar vantagem.
 As vizinhanças dos Maias capricharam nas campanhas pega-turista e colocaram água no feijão, no milho e na pimenta. A Guatemala investiu mais de 8 milhões de dólares na esperança de receber 200 mil estrangeiros. O México espera 80 milhões de turistas com shows e jantares festivos, além de um sorteio especial da loteria federal com prêmio equivalente a R$ 1,3 milhão. Haja guacamole!
 O T.G.I. Friday’s americano organizou festas regadas a Margaritas Maias em todas as suas unidades, com costelinhas de porco para acompanhar. Prova de que não sou só eu que saí da dieta diante do fim do mundo. E se os Maias estiverem certos, vou sair dessa com fome?
 Dizem que eles estão errados, que esse negócio de fim do mundo é besteira. A Nasa escalou o cientista David Morrison para confrontar a teoria de que a Terra acabará subitamente. Segundo ele, será um fim arrastado, uma agonia lenta que destruirá tudo e todos de pouquinho em pouquinho. Ou seja, não há nada a temer. Por hoje.
 Mas tem uma coisa que me incomoda. No fim d’Os Maias, romance de Eça de Queirós, Carlos da Maia e João da Ega têm sua derradeira conversa existencial - e batem o martelo sobre a “teoria definitiva da existência” - em meio a lamentos sobre um grande prato de paio com ervilhas que esqueceram de encomendar para o jantar.
 Não sei vocês, mas para mim isso parece um sinal. E se os Maias estiverem certos?

2 comentários:

wair de paula disse...

Joanna, o mundo não acabou, mas minha cintura sim...
Portanto, feliz 2013!

Joana Pellerano disse...

Oh, destino, Wair... :)