Análise de placar

Fonte: revista Alfa
Se o Brasil joga final conta a França, por exemplo, não há dúvidas de que vá ganhar. Somos patriotas desse jeito. Jamais passa por nossa cabeça que o NOSSO time vai perder, mesmo que seja tecnicamente inferior, que a campanha não seja das melhores.
O mesmo acontece em eventos não esportivos, quando o clima de “já ganhou” também atende a argumentos menos objetivos. Como na revelação da lista San Pellegrino World’s 50 Best Restaurants, promovida pela revista inglesa Restaurant e revelada na última segunda-feira. Todo mundo achava que o DOM de Alex Atala – que pulou de sétimo para quarto no ano passado – ia emplacar o topo da votação. E aí – surpresa! – ele foi para o sexto.
Atala é um grande representante da nova cara que o Brasil quer ter: além da imagem de amável e divertido, o país quer ser arrojado, inovador, usar seu bom humor para complementar as demais vocações nacionais. E não vê-lo ganhar é um pouco como perder o título na cara do gol.
Mas Atala tinha mesmo chance? Será que merecia mais que os irmãos Roca? O trio que finalmente ganhou o título depois de oscilar por anos com seu restaurante El Celler de Can Roca nas medalhas de prata e bronze. E isso apesar de seu trabalho consistentemente elogiado mundo afora e de sua afinidade com a cozinha de Ferran Adrià, o ex-líder do campeonato. Tivemos chance mesmo?
O fato é que estamos lá, no top 10 do prêmio mais respeitado da atualidade. O World’s 50 Best está de olheiro nas categorias de base, enquanto a era dos figurões, ou seja, dos importantes guias de gastronomia, já brilhou com mais força. Gambero Rosso e Gault-Millau focam apenas nas suas regiões, e mesmo Michelin e Zagat, mais “internacionais”, olham para diferentes países de forma isolada, sem integração entre os resultados. Comendo pelas beiradas, o prêmio patrocinado conseguiu mais de 900 representantes mundo afora, fazendo um retrato global das tendências gastronômicas.
Defeitos à parte – como o fato de seus colaboradores não precisarem comprovar visita ao restaurante, o que pode implicar em voto motivado por fama ou jabá – o olhar mais amplo é celebrado e bem-vindo. Afinal, foi só assim para ele vir para o nosso lado.
O sexto lugar não é um rebaixamento para Atala. Ter o sexto melhor restaurante do mundo não é pouca coisa, principalmente em um país que apenas há pouquíssimo tempo começou a entender o papel cultural da gastronomia.
Mas fica como um recado: não é porque estamos pertinho de receber Copa e Jogos Olímpicos que o Brasil vai subir nos rankings por osmose. Precisamos nos manter criativos, competentes e comunicativos. Aí o primeiro lugar vai querer falar português.

Um comentário:

wair de paula disse...

Joana, nao tive o prazer de comer no Noma ou nos incensados espanhóis, mas já fui ao Dom algumas vezes. Já comi divinamente bem, e tb já comi razoavelmente bem. Isso é inadmissível em se tratando de um dos melhores do mundo. No quesito consistência X qualidade, tive mais sorte no Mani - que tb se saiu bem no ranking da Restaurant. Será este o calcanhar de Atala?
Abraços