Masterchef no Brasil

Fogaça, Jacquin, Carosella: "Esse é o prato da sua vida?"
Foto: divulgação
Há algumas semanas o reality show Masterchef chegou à TV brasileira e, principalmente, às rodas de conversa (reais e virtuais). Demorou, mas chegou aqui em casa, finalmente.
O Masterchef é uma competição de cozinha para amadores, aqueles cozinheiros que abastecem a família e os amigos sem formação específica nem salário. É uma chance para quem adora cozinhar e vê a profissão como receita de felicidade. E é uma franquia de sucesso, com milhões de fãs mundo afora.
A franquia nascida no Reino Unido na década de 1990 - com o formato atual refinado em 2005 - se multiplicou para 40 países e ganhou desdobramentos para cozinheiros profissionais, celebridades e até criancinhas de 9 a 12 anos que grelham pato e assam madeleines melhor que a maioria dos cozinheiros amadores por aí (lista na qual não me encaixo por não achar justo com os cozinheiros amadores).
Apesar da linguagem visual ser sempre a mesma, Masterchef tem diferentes “escolas” nos países anfitriões. Mudam a periodicidade da exibição, o grau de dificuldade dos desafios e o perfil dos jurados, que vão dos carrascos sem botão de volume aos professores bondosos e chorões.
Na Inglaterra o programa é exibido cinco dias por semana, com tempo para investir na narrativa de novela e para dar foco à preparação da comida. Nos Estados Unidos importaram não só o Gordon Ramsey mas a tendência a intimidar os participantes, reforçando uma imagem que a cozinha profissional é mais dura que carne de segunda. Na Austrália, o trio de jurados é formado por dois chefs e um jornalista e há no ar um clima pacífico de torcida pelo sucesso coletivo.
Aqui no Masterchef Brasil, o corpo de jurados é formado pelo chef brasileiro Henrique Fogaça (do restaurante Sal) e por dois chefs estrangeiros: Paola Carosella (Arturito) e Erick Jacquin (que aproveitou a falta de cozinha própria e a fama de difícil).
Esse casting trilingue bem que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Nada contra chefs estrangeiros, claro, e não dá pra negar que eles têm um papel imprescindível no amadurecimento da gastronomia brasileira. Mas esse amadurecimento já pode ser percebido numa grande geração de profissionais que trariam diversidade não só de looks e personalidades, mas de visões a respeito da cozinha (sem falar nos sotaques que dispensariam legenda).
Também não dá pra ignorar a disparidade entre os concorrentes. Além de ter demorado um tempinho pra entender a proposta de reunir competidores amadores - “como é que se foi dar espaço na TV pra esse pessoal perdido se há tanto cozinheiro bom por aí?” - , o telespectador ficou ainda mais confuso ao ver a convivência entre as blogueiras especializadas, os pilotos de cozinha ilha, a dona de casa e o auxiliar de serralheiro, com graus muito diferentes de habilidade e repertório.
Apesar do sucesso geral, os filhos do Masterchef nem sempre vingam. O do Peru foi um pouco constrangedor, e países como Alemanha e Turquia não emplacaram uma segunda temporada. Se a moda da gastronomia vai durar no Brasil pra dar longevidade à disputa é um mistério. Então, se o bordão "esse é o prato da sua vida?" anda frequentando a sua sala na terça à noite, é melhor aproveitar como se fosse a última chance.

Nenhum comentário: